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Treino

Treino de força está associado a menos doença cardíaca, e a OMS pede ao menos duas sessões por semana

Estudo com 117 mil mulheres liga o treino com pesos a menos infarto; ensaio clínico indica que ele complementa o aeróbico, mas não o substitui.

Por Redação wellvy.news ·

Quatro alunos de pé em uma sala de ginástica, com os braços abertos na lateral do corpo segurando halteres leves
Alunos fazem elevação lateral com halteres leves em aula coletiva de academia. Foto: Amanda Mills/CDC (Domínio público)

A musculação costuma entrar na rotina por causa de músculo, osso e estética. A pesquisa dos últimos anos acrescenta o coração à lista: em estudos de acompanhamento, quem faz treino de força tem menos infarto e menos morte por doença cardiovascular do que quem não faz. O tema voltou à pauta nesta semana no The New York Times e na Women's Health americana.

O maior desses estudos saiu em maio no Journal of the American College of Cardiology. Pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard e da Universidade de Zhejiang (China), com participação do brasileiro Leandro Rezende, da Unifesp, acompanharam 117.025 enfermeiras americanas por 14,5 anos, em média. Quem fazia 2 horas ou mais de treino de força por semana teve risco 20% menor de evento cardiovascular grave (infarto, AVC ou procedimento para desobstruir artéria) do que quem não treinava. Para infarto, a redução foi de 44%. Para AVC, não houve diferença.

No mesmo estudo, as mulheres que cumpriam as metas de aeróbico, faziam pelo menos 1 hora semanal de força e viam menos de 2 horas de TV por dia tiveram risco 40% menor, na comparação com o grupo de referência do estudo. Entre as que cumpriam aeróbico e TV, mas não treinavam força, a redução foi de 27%. Treinar membros superiores e inferiores e manter o hábito ao longo dos anos esteve ligado a resultados melhores.

Uma meta-análise de 16 estudos publicada em 2022 no British Journal of Sports Medicine chegou a números parecidos: o treino de força foi associado a risco 10% a 17% menor de morte por qualquer causa, doença cardiovascular, câncer e diabetes. O maior benefício apareceu entre 30 e 60 minutos semanais; acima disso, o efeito ficou incerto. Um estudo americano de 2019 com 12.591 adultos já tinha visto algo semelhante: de uma a três sessões por semana, ou menos de 1 hora no total, estiveram associadas a risco 40% a 70% menor de eventos cardiovasculares, independentemente do aeróbico.

Associação não é prova de causa

Todos esses trabalhos são observacionais. Eles mostram que quem levanta peso adoece menos do coração, mas não provam que o peso seja a razão: quem treina costuma ter outros hábitos saudáveis, e o treino foi relatado pelos próprios participantes em questionários.

Quando a pergunta foi testada em ensaio clínico randomizado, a resposta ficou mais matizada. No CardioRACE, da Universidade Estadual de Iowa, publicado em 2024 no European Heart Journal, 406 adultos de 35 a 70 anos com sobrepeso e pressão elevada foram sorteados para treinar força, aeróbico, os dois combinados ou nada, três vezes por semana durante um ano. O índice que somava pressão, colesterol LDL, glicemia e gordura corporal melhorou nos grupos de aeróbico e de treino combinado, mas não no de força sozinha. O percentual de gordura caiu nos três grupos que treinaram.

A leitura que emerge é de complemento, não de troca. Em declaração científica de 2023, a American Heart Association concluiu que o treino de força é seguro e eficaz para a saúde cardiovascular de adultos com e sem doença no coração, e lembrou que menos de um terço dos americanos cumpre as duas sessões semanais recomendadas.

O que diz a recomendação oficial

  • Adultos: 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada por semana (ou 75 a 150 de intensa).
  • Mais fortalecimento muscular de intensidade moderada ou maior, envolvendo os grandes grupos musculares, em 2 ou mais dias por semana.
  • Idosos: atividade variada que combine equilíbrio e força em 3 ou mais dias por semana, para preservar a funcionalidade e prevenir quedas.

As metas são das diretrizes da Organização Mundial da Saúde de 2020. Na Women's Health, a fisioterapeuta Abby Bales sugere a quem nunca treinou começar com poucas sessões, priorizar a técnica antes da carga e aumentar aos poucos. Quem é sedentário, tem pressão alta ou doença cardíaca deve passar antes por avaliação médica. Para montar o treino e ajustar a carga, procure um profissional de educação física.

Com informações de Journal of the American College of Cardiology (Zhang et al., 2026), British Journal of Sports Medicine (Momma et al., 2022), Medicine & Science in Sports & Exercise (Liu et al., 2019), European Heart Journal (ensaio CardioRACE, 2024), American Heart Association (declaração científica, Circulation, 2024), OMS (diretrizes de atividade física 2020, BJSM), The New York Times e Women's Health (EUA).