Deficiência de energia no esporte afeta hormônios, ossos e humor, diz consenso do COI
Caso da tenista Emma Navarro chama atenção para a RED-S, quadro de quem come menos do que o treino exige; o Comitê Olímpico Internacional lista os sinais de alerta.

A tenista americana Emma Navarro, que chegou ao 8º lugar do ranking mundial em 2024, encerrou a temporada de 2026 antes da hora para tratar dois diagnósticos: deficiência relativa de energia no esporte (RED-S) e hipotireoidismo de Hashimoto. Ela contou no Instagram, em 30 de setembro, que foi diagnosticada em novembro de 2025, segundo a Associated Press. Disse que sentia mais fome e adoecia com mais facilidade desde 2023 e que jogou com dor de cabeça, tontura e cansaço na campanha até as quartas de final do Australian Open de 2025.
"Não há peso na balança nem magreza nos membros que valha mais do que a sua saúde", escreveu a tenista, segundo a AP. Ela planeja voltar no Australian Open de janeiro.
O que é a RED-S
O Comitê Olímpico Internacional (COI) descreveu a síndrome em 2014 e publicou a versão mais recente do consenso em 2023, no *British Journal of Sports Medicine*. O texto passou a grafar a sigla como REDs. A definição: um conjunto de prejuízos físicos e psicológicos causado por baixa disponibilidade de energia problemática, ou seja, prolongada ou intensa. Em termos simples, a pessoa come menos do que o corpo precisa para sustentar o treino e as funções básicas.
O consenso separa dois cenários. No adaptável, o déficit é curto e os efeitos são leves e se revertem rápido. No problemático, ele afeta metabolismo, função reprodutiva, ossos, imunidade, coração, sangue e humor, e derruba o desempenho. O painel registra que a falta de comida pesa um pouco mais nessas alterações do que o excesso de treino. Homens também são atingidos: o documento cita efeitos sobre o eixo hormonal reprodutivo e os hormônios metabólicos.
A frequência estimada varia muito entre os estudos, de 23% a 79,5% das atletas mulheres e de 15% a 70% dos homens, porque não há um exame único e os métodos de medida diferem. Desde o consenso anterior, de 2018, saíram cerca de 178 estudos sobre o tema, com perto de 23,8 mil participantes, 80% mulheres.
Sinais que pedem atenção
O consenso lista sintomas que o próprio atleta percebe e sinais que o médico identifica. Entre eles:
- menstruação que falha ou some;
- lesões ósseas por estresse, como a fratura por estresse;
- queda de libido e, nos homens, menos ereções matinais;
- fome persistente;
- alterações de humor, sintomas depressivos e sono pior;
- desempenho e treinos que estagnam ou pioram;
- doenças frequentes, sinal de imunidade mais baixa.
Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho. O COI determina que a RED-S só seja confirmada por um médico com experiência no tema, com apoio de equipe multidisciplinar e depois de descartadas outras causas para cada sintoma. Cansaço e alteração hormonal, por exemplo, também aparecem em doenças da tireoide como a de Hashimoto, que é autoimune. À CNN Brasil, o endocrinologista Rodrigo Gomes de Souza afirmou que dietas severas podem contribuir para o surgimento ou o agravamento da doença e que repor o hormônio não basta sem corrigir a falta de energia.
Pelo consenso, o tratamento começa por recuperar a disponibilidade de energia sem remédio, com mudanças na alimentação e no treino, e se apoia em médico do esporte, nutricionista esportivo e psicólogo. O documento foi escrito para atletas, do nível de formação à elite; especialistas ouvidos pela CNN Brasil alertam para o mesmo risco em quem combina dieta muito restritiva e treino pesado na academia. Se algum desses sinais aparecer, o caminho é procurar um médico do esporte e um nutricionista esportivo.
Com informações de British Journal of Sports Medicine (consenso do COI sobre REDs, Mountjoy et al., 2023), NBC Sports (Associated Press) e CNN Brasil.



