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Preço faz pacientes largarem as canetas, estimam médicos; diretriz da Abeso desaconselha manipulados

Pesquisa com 1.067 médicos, encomendada pela federação das redes de farmácias, diz que só 28% dos pacientes aptos conseguem pagar; diretriz lembra que remédio não substitui hábito.

Por Redação wellvy.news ·

Caneta injetável azul de semaglutida, com rótulo vermelho e branco, sobre uma mesa de madeira
Caneta injetável de semaglutida (Ozempic) sobre uma mesa de madeira. Foto: Dennis Sylvester Hurd (CC0)

O preço é a principal barreira para quem tem indicação de usar as canetas de GLP-1 contra a obesidade, na avaliação de médicos brasileiros. Num levantamento com 1.067 médicos, eles estimaram que só 28% dos pacientes aptos conseguem manter o tratamento com o próprio dinheiro e que 65% interrompem o uso ou deixam de seguir a dose prescrita por falta de recursos.

A pesquisa foi feita em maio de 2026 pelo Instituto IFEPEC, braço de ensino e pesquisa da Febrafar, a federação das redes associativistas e independentes de farmácias, a pedido da própria federação, e divulgada em junho. Os números voltaram ao noticiário nesta quinta-feira (15) num relatório da Brace Pharma, que, segundo a CNN Brasil, é uma das empresas do Grupo EMS. A EMS lançou em julho uma semaglutida própria no Brasil, de acordo com comunicado da BD, parceira no dispositivo da caneta. Ou seja: o dado chega por duas partes interessadas na venda desses remédios.

Os percentuais são estimativas dos médicos sobre os próprios pacientes, não uma medição do bolso de quem se trata. A amostra reuniu clínicos gerais (59,3%), cardiologistas (21,9%), médicos de família e comunidade (10,8%) e endocrinologistas (8%), das cinco regiões, com maior peso do Sudeste (544 entrevistados). O material divulgado não explica como os médicos foram escolhidos.

Na mesma pesquisa, os médicos calcularam que um corte de cerca de 35% nos preços faria a fatia de pacientes capazes de seguir o tratamento subir para cerca de 45%. Eles também relataram que, em média, 7% dos pacientes chegam à primeira consulta dizendo já ter usado GLP-1 sem receita.

O que a diretriz da Abeso diz sobre remédio, hábito e manipulado

O pano de fundo clínico é a Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, lançada em abril pela Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) e retomada nesta semana pelo Futuro da Saúde em reportagem com médicos do Einstein e da Abeso. O documento, publicado no site da entidade (a versão disponível ali traz a marca de preliminar) e não em periódico científico, tem 32 recomendações, elaboradas por 22 endocrinologistas, um nutricionista e quatro clínicos, com consulta a uma representante de pacientes.

  • Indicação: remédio para quem tem IMC a partir de 30, ou a partir de 27 com complicações ligadas ao excesso de gordura. Com cintura ou relação cintura/altura aumentadas e complicações, o tratamento pode ser considerado independentemente do IMC, recomendação de grau mais fraco, baseada em consenso de especialistas.
  • Meta: para a maioria, perda de 10% do peso ou mais, pesando benefícios e riscos.
  • Escolha: preferir remédios de alta potência quando possível; quando não for viável, a decisão deve levar em conta doenças associadas, segurança, tolerância, comodidade e custo.
  • Duração: o tratamento é recomendado também para manter o peso perdido no longo prazo, com reavaliações periódicas.
  • Contra: a diretriz não recomenda fórmulas manipuladas para obesidade, incluindo misturas com diuréticos, hormônio de tireoide, anabolizantes, implantes hormonais ou hCG, nem remédios sem eficácia comprovada em ensaios clínicos randomizados.

Nenhuma das 32 recomendações trata o remédio como solução isolada. As três primeiras pedem mudança de estilo de vida junto com o tratamento, orientação nutricional e estímulo à atividade física. Para quem tem mais de 60 anos ou perda de massa muscular, a diretriz indica associar o remédio a treino de força e proteína adequada, para emagrecer sem perder músculo.

Para quem não consegue pagar, o caminho que a diretriz aponta é rever a escolha do remédio com o médico, e não comprar caneta sem receita nem recorrer a manipulado. A Anvisa não recomenda o uso de produtos irregulares, que não passaram por sua avaliação. Antes de começar, trocar ou parar qualquer tratamento para obesidade, procure um médico.

Com informações de Abeso (Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026), Agência Brasil, Guia da Farmácia (pesquisa IFEPEC/Febrafar), Viva (metodologia da pesquisa IFEPEC/Febrafar), BD (comunicado sobre a semaglutida da EMS), CNN Brasil e Futuro da Saúde.

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