Novo Nordisk e Lilly divulgam dados de canetas sobre idade biológica; resultados ainda são preliminares
As análises, feitas pelas próprias fabricantes de remédios vendidos no Brasil, saíram em congresso e em preprint sem revisão e medem marcadores no sangue, não anos de vida.

A Novo Nordisk, dona do Ozempic e do Wegovy, e a Eli Lilly, do Mounjaro, apresentaram análises segundo as quais pacientes tratados com seus remédios tiveram avanço menor nos chamados relógios de envelhecimento, medidas feitas no sangue que tentam estimar a idade biológica. Os dados foram mostrados no congresso Aging Research & Drug Discovery (ARDD), de 1º a 3 de outubro, em Harvard, nos EUA. São dados das fabricantes, e nenhum deles passou por revisão de outros cientistas.
O trabalho da Novo Nordisk está num preprint, artigo ainda não revisado, publicado em 22 de setembro na plataforma Research Square. A maioria dos autores é funcionária da empresa e tem ações dela, como declarado no texto. O grupo reanalisou proteínas no sangue de 10.052 participantes de cinco ensaios clínicos randomizados que compararam semaglutida com placebo. Pela estimativa, a idade biológica do coração ficou cerca de 2 a 4 anos menor no grupo da semaglutida; rim, cérebro, pâncreas e pulmão tiveram diferenças de 1 a 4 anos.
Os próprios autores escrevem que os achados não comprovam rejuvenescimento biológico nem que essas medidas sirvam para prever desfechos de saúde. Segundo o preprint, as diferenças não se explicam só pela perda de peso, pela glicemia ou pela inflamação medida no sangue.
A Lilly mostrou um subestudo do SURMOUNT-5, ensaio de 72 semanas com tirzepatida, usando relógios epigenéticos, que leem marcas químicas no DNA. Segundo a Galileu, a análise olhou um grupo pequeno de participantes com mais de 50 anos que tomaram tirzepatida e não teve grupo placebo para comparação. Os dados não foram publicados. "Não é que vamos reverter a idade em 30 anos, mas é uma redução significativa", disse Kevin Duffin, vice-presidente de pesquisa em envelhecimento da Lilly, à MIT Technology Review.
O que ainda não se sabe
Os participantes dos estudos tinham obesidade, sobrepeso ou diabetes. Steve Horvath, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a quem se atribui a criação dos relógios de envelhecimento, disse à MIT Technology Review que ainda não viu evidência suficiente de benefício para pessoas magras. Vadim Gladyshev, de Harvard, que ajudou a Novo nas medições, afirmou à revista que, numa população saudável, "ninguém sabe". E os relógios ainda estão em validação: medem marcadores, não quanto alguém vai viver.
Em animais, há sinais na mesma direção. Um estudo publicado na Nature em 2 de setembro, liderado pela Universidade da Califórnia em Berkeley, tratou camundongos fêmeas de 20 meses com semaglutida: elas viveram mais e tiveram resultados parecidos aos de um grupo com restrição de calorias, com vantagem em memória espacial e controle da glicose. Foi feito só com fêmeas de uma linhagem.
Outro trabalho, do Cedars-Sinai, publicado em 5 de outubro no European Heart Journal, deu semaglutida em doses que não emagreciam a ratos e miniporcos com um modelo de insuficiência cardíaca ligada à obesidade. A função de relaxamento do coração melhorou, e a gordura no coração e no fígado diminuiu. Resultado em animal não vale automaticamente para pessoas.
O próximo passo é testar em gente saudável. Segundo a MIT Technology Review, a agência americana ARPA-H financiou com US$ 38 milhões um estudo no Texas com semaglutida em pessoas saudáveis com mais de 60 anos.
No Brasil, essas canetas são aprovadas para diabetes e obesidade, conforme a bula, e só saem da farmácia com receita retida. Nenhum desses estudos muda isso. Dúvidas sobre o tratamento devem ser levadas a um médico.
Com informações de Research Square – Dermit et al., preprint (Novo Nordisk), 22/9/2026, Nature – Feng et al., 2/9/2026, European Heart Journal – Elbatreek et al., 5/10/2026, MIT Technology Review, Insilico Medicine – comunicado sobre o ARDD 2026, Exame, Galileu, Global Wellness Summit e Medical Xpress.



