Exame de sangue para Alzheimer começa a ser feito em Porto Alegre, só para quem já tem sintomas
Teste de p-tau217 pode evitar punção lombar ou PET em parte dos casos, mas depende de pedido médico e não diagnostica a doença sozinho.

O Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, começou a oferecer na quinta-feira (15) um exame de sangue que procura sinais biológicos do Alzheimer. O teste mede a proteína p-tau217 e, por enquanto, só é feito nesse hospital, na rede privada. Ele é indicado para quem já tem sintomas e suspeita clínica da doença, com pedido do médico.
O exame usa a plataforma Lumipulse G pTau 217 Plasma, da fabricante Fujirebio, regularizada pela Anvisa em 17 de agosto, segundo o g1. A p-tau217 é uma forma modificada da proteína tau, e seu nível no sangue acompanha o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro, uma das marcas do Alzheimer. Ou seja: o teste não mede a demência, e sim um sinal indireto da alteração biológica.
O que os estudos dizem
O principal estudo sobre essa plataforma saiu em 2025 na Nature Medicine. Foram 1.767 pessoas com sintomas cognitivos atendidas na Suécia, na Espanha e na Itália, com o resultado do sangue comparado ao da análise do líquor. Nos serviços especializados, o teste acertou de 89% a 91% dos casos; entre os positivos, de 89% a 95% tinham de fato a alteração, e entre os negativos, de 77% a 90% não tinham. Em pessoas com 80 anos ou mais, a acurácia caiu para 83%.
Com dois pontos de corte, a acurácia subiu para 92% a 94%, mas de 12% a 17% dos participantes ficaram numa faixa intermediária, sem resposta. Eduardo Zimmer, responsável pela implantação do exame no hospital, estimou ao g1 que de 15% a 20% dos resultados devem cair nessa faixa inconclusiva; aí o médico pode pedir PET, punção lombar ou repetir o exame depois de um ano. A validação feita com amostras do próprio hospital ainda não foi publicada em revista científica.
Quem pode fazer e o que o resultado não diz
A diretriz da Alzheimer's Association, publicada em julho de 2025, recomenda esse tipo de teste para pessoas com comprometimento cognitivo já constatado, avaliadas por especialistas em memória. Testes com sensibilidade de pelo menos 90% e especificidade de 75% podem servir de triagem; com 90% nas duas medidas, podem substituir o PET ou o líquor. A entidade alerta que muitos testes comerciais não atingem esses números com um único ponto de corte e que nenhum deles dispensa a avaliação clínica completa.
Na prática, o exame não serve para rastrear quem não tem sintomas: nesse grupo, um resultado positivo não tem significado estabelecido. Segundo o g1, a bula prevê o uso a partir dos 50 anos. O hospital diz planejar a cobertura por planos de saúde e a avaliação no SUS ainda em 2026, mas o Ministério da Saúde informou ao g1 que não há pedido de análise do exame na Conitec, etapa obrigatória para entrar na rede pública.
Esquecimentos frequentes ou mudanças de comportamento pedem consulta com um médico, de preferência neurologista ou geriatra. É ele quem decide se o exame de sangue faz sentido e como interpretar o resultado junto com os demais testes.
Com informações de Nature Medicine (Palmqvist et al., 2025), Alzheimer's & Dementia (diretriz da Alzheimer's Association, 2025), g1 e Correio Braziliense.



