Casos novos de demência devem passar de 11,4 milhões para 24,7 milhões por ano até 2050, estima estudo
Análise com 38.418 pessoas em 18 países, entre eles o Brasil, encontrou mais casos em mulheres e em países de renda baixa e média.

O número de pessoas que desenvolvem demência a cada ano deve mais que dobrar até 2050: de 11,4 milhões de casos novos em 2023 para 24,7 milhões. A estimativa é de um estudo liderado pelo Centro para o Envelhecimento Cerebral Saudável (CHeBA) da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW Sydney), na Austrália, publicado em 12 de outubro na revista científica JAMA Neurology.
O trabalho é uma meta-análise de dados individuais de 22 coortes populacionais, estudos que acompanham as mesmas pessoas por anos, reunidas no consórcio internacional COSMIC. Ao todo, foram 38.418 participantes em 18 países e territórios de seis continentes, recrutados entre 1990 e 2011 e acompanhados até o fim de 2021. Nesse período, 3.001 deles tiveram diagnóstico de demência, feito com critérios clínicos e analisado com o mesmo método estatístico em todos os grupos.
A taxa global ficou em 9,7 casos novos por mil pessoas-ano, já padronizada por idade e sexo. Na prática, é como acompanhar mil pessoas durante um ano e registrar quase dez diagnósticos. Entre as mulheres, a taxa foi de 10,6; entre os homens, de 8,6.
Por que o dado importa para o Brasil
A diferença maior apareceu entre grupos de países: 13,6 casos por mil pessoas-ano nos de renda baixa e média, contra 8,3 nos de alta renda. O estudo reuniu 6 países do primeiro grupo, entre eles o Brasil, segundo a Galileu, e 12 do segundo. O resumo publicado não traz uma taxa específica para o país.
"A maior incidência que observamos em países de baixa e média renda é particularmente preocupante, porque essas regiões estão passando por um rápido envelhecimento populacional, muitas vezes com menos recursos para prevenção, diagnóstico e cuidado", disse o autor sênior, Perminder Sachdev, em comunicado da UNSW.
Os autores fazem duas ressalvas. A projeção para 2050 supõe que as taxas por idade e sexo fiquem constantes; o salto vem do envelhecimento da população, não de um risco individual maior. E o estudo não explica por que mulheres e países mais pobres têm mais casos: a diferença pode refletir fatores de saúde, sociais, econômicos, educacionais e ambientais. O número também mede incidência (casos novos), e não prevalência: hoje, mais de 57 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, e projeções anteriores falam em cerca de 150 milhões em 2050.
O que está ao alcance
O estudo da JAMA Neurology não analisou fatores de risco. O coautor Henry Brodaty defende agir em várias frentes, da redução dos fatores de risco modificáveis ao diagnóstico precoce. A referência mais usada sobre o tema é o relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre demência, uma revisão de evidências que listou 14 fatores associados a maior risco ao longo da vida:
- pouca escolaridade, perda auditiva e perda de visão não tratada;
- pressão alta, colesterol LDL alto na meia-idade, diabetes e obesidade;
- sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool;
- depressão, isolamento social, traumatismo craniano e poluição do ar.
Pela conta da comissão, eliminar os 14 fatores poderia, em tese, prevenir ou adiar cerca de 45% dos casos. É uma estimativa para a população, não uma garantia individual: idade e genética continuam pesando, e parte dos fatores depende de política pública, como educação e qualidade do ar. No nível pessoal, a comissão recomenda tratar pressão, colesterol, diabetes, obesidade e depressão, usar aparelho auditivo quando indicado, fazer exame de vista, não fumar, beber menos e manter-se ativo física, social e intelectualmente. Quem nota mudanças na memória, em si ou em alguém da família, deve procurar um médico.
Com informações de JAMA Neurology (Vella et al., 2026), UNSW Sydney (comunicado), The Lancet (Comissão sobre demência, 2024), Revista Galileu e O Globo.



