Canetas para diabetes estão associadas a menos internações psiquiátricas na esquizofrenia, diz estudo
Análise de registros de mais de 70 mil adultos nos EUA com esquizofrenia e diabetes tipo 2 aponta associação, não causa; remédio não substitui tratamento psiquiátrico.

Adultos com esquizofrenia e diabetes tipo 2 que começaram a usar remédios da classe GLP-1, a das canetas como Ozempic e Mounjaro, tiveram 24% menos risco de internação psiquiátrica do que os que não começaram nenhum remédio para diabetes. É o principal resultado de um estudo observacional publicado na The Lancet Psychiatry por pesquisadores da Universidade Deakin, na Austrália.
O trabalho analisou prontuários eletrônicos de 70.257 adultos atendidos nos Estados Unidos, reunidos no banco de dados NeuroBlu. A idade média era de 53 anos e 48,2% eram mulheres. Do total, 9.093 começaram um GLP-1, 4.968 um inibidor de DPP-4, 5.328 um inibidor de SGLT2 (duas outras classes de remédio para diabetes) e 50.868 não começaram nenhum deles. As prescrições foram de 2018 a outubro de 2025, e cada pessoa foi acompanhada por até dois anos.
O que foi medido
Os pesquisadores compararam dois desfechos: internação psiquiátrica e ida ao pronto-socorro por crise de saúde mental. Para equilibrar os grupos, usaram um método estatístico que ajusta idade, quadro clínico e outros remédios em uso. Em relação a cada grupo de comparação, o início de um GLP-1 esteve associado a:
- internação psiquiátrica: risco 24% menor que sem remédio para diabetes, 18% menor que com DPP-4 e 17% menor que com SGLT2;
- pronto-socorro por motivo psiquiátrico: risco 29% menor que sem remédio, 13% menor que com DPP-4 e 20% menor que com SGLT2.
Segundo o Medical Xpress, a associação apareceu com semaglutida, liraglutida e tirzepatida, mas não com dulaglutida, e foi mais forte em quem perdeu peso. Em declarações reproduzidas pelo O Globo, a autora principal, Najmeh Davoodian, levantou uma hipótese: com o peso sob controle, pode ficar mais fácil manter os antipsicóticos, que costumam engordar. Ela disse que são precisos mais estudos para confirmar a ligação e entender o porquê.
Os limites do estudo
Estudo observacional mostra associação, não causa. Os próprios autores escrevem que confusão residual e viés de seleção limitam a generalização dos resultados: quem recebe uma caneta pode ser diferente, em aspectos não medidos, de quem não recebe. Eles defendem ensaios clínicos randomizados antes de qualquer uso dessas drogas como tratamento psiquiátrico. O estudo foi financiado por um conselho público de pesquisa australiano e os autores declaram não ter conflitos de interesse.
O dado vale para pessoas que já têm indicação metabólica para o remédio, no caso o diabetes. Para quem tem esquizofrenia, o tratamento psiquiátrico segue como base, e qualquer mudança de medicação deve ser discutida com o psiquiatra e o médico que cuida do diabetes.
Com informações de The Lancet Psychiatry (Davoodian et al., 2026), PubMed (resumo do estudo), Medical Xpress e O Globo.



